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Essência Científica
Vol. 1, No. 1, Março 2002

Inovação e difusão: considerações teóricas sobre a mudança tecnológica

André Yves Cribb1
Embrapa Agroindústria de Alimentos


Publicado por: Essência Científica. (Rio de Janeiro -RJ, Brasil).
Observação: Este artigo é parte da tese de doutorado do autor em Engenharia de Produção, área de concentração em Inovação Tecnológica e Organização Industrial (COPPE/UFRJ).
Citação correta: CRIBB, A. Y. Inovação e difusão: considerações teóricas sobre a mudança tecnológica. Essência Científica, Vol. 1, No. 1, pp. 1 - 12, mar. 2002. Disponível em: http://www.gifad.org.br/publicacoes/escient/ec_01010102.htm. Acesso em: .

Resumo

A mudança tecnológica é um processo complexo, constituído pela inovação e difusão de novos produtos ou processos. Os modelos teóricos que a analisam se diferenciam principalmente no modo de estudar a relação entre suas duas fases componentes. Para alguns modelos, a inovação e a difusão são duas fases distintas e separadas que se realizam em momentos diferentes. Para outros, a inovação e a difusão são duas fases interdependentes. Neste trabalho, examina-se as características da mudança tecnológica com base na literatura desenvolvida nos últimos trinta anos, identificando a natureza da tecnologia e caracterizando a dinâmica e direção da mudança tecnológica. Conclui-se que a mudança tecnológica se caracteriza como um processo não linear mas sim "interativo" em razão de seu caráter essencialmente endógeno e requer políticas ou estratégias específicas destinadas a promover a criação de capacidades tecnológicas.

1. Introdução

A pesquisa sobre a mudança tecnológica vista como um processo envolvendo principalmente a inovação e a difusão de novos produtos ou processos cresceu significativamente durante os últimos anos. Paralelamente a este crescimento, uma nítida modificação na concepção do relacionamento existente entre a inovação e a difusão de novos produtos ou processos pode ser observada. Enquanto os "modelos tradicionais" de interpretação da mudança tecnológica separaram a inovação e a difusão como dois temas distintos, os "recentes" as consideram como inter-relacionadas.

Para os modelos tradicionais, a difusão é considerada estar num nível de análise diferente da inovação. É por isso que os estudos de difusão inscritos dentro destes modelos não consideram o processo de inovação mas começam a partir de um ponto em tempo quando a inovação já está em uso. Neste sentido, as primeiras pessoas ou unidades produtivas que adotam uma nova técnica são vistas como inovadoras; e, a difusão, subseqüente à fase de adoção ou inovação desta técnica, é entendida como a divulgação desta pelo resto da população (Thirtle & Ruttan, 1987). Isso quer dizer que a mudança tecnológica é entendida por estes modelos como um processo envolvendo primeiro a geração e a comercialização de grandes inovações, e segundo a aplicação mais ampla destas inovações num processo gradual definido como o de difusão.

Tais modelos, na sua dimensão internacional, supõe que a geração e a comercialização de inovações são negócios de países desenvolvidos e que nenhum país pode inovar antes de alcançar os limites tecnológicos internacionais. Neste sentido, os países em desenvolvimento são vistos como sendo caracterizados pela ausência de inovação tecnológica (Herbert-Copley, 1990; UNCTAD, 1996) e, portanto, envolvidos essencialmente na difusão internacional de tecnologia. O próprio destes países seria escolher e adotar tecnologias existentes; a inovação criativa estaria longe de seu alcance (Bell & Pavitt, 1992).

Nos modelos recentes, o processo de difusão de novas tecnologias é caracterizado não só pelo crescimento gradual de adoção destas pela população mas também por seu caráter cumulativo. Neste sentido, a difusão é considerada interligada à inovação (Rogers, 1983; Thirtle & Ruttan, 1987; Biggs, 1990; Bell & Pavitt, 1992). Tais modelos se baseiam fundamentalmente na premissa de que uma inovação, depois de ser gerada, conhece, na fase de sua difusão, melhorias que facilitam sua adoção e seu uso em campos já existentes assim como sua extensão a novas aplicações.

Bell & Pavitt (1992) reconhecem que a difusão não pode ser reduzida à "aquisição de máquinas ou projetos" e à "assimilação de informação". Para eles, a difusão envolve, além do mais, melhorias significativas que modelam as inovações iniciais não só para adaptá-las a condições particulares de uso2 mas também para lhes atribuir níveis mais altos de performance. As melhorias, ocorridas numa dada tecnologia em curso de difusão, se concretizam através de um processo que envolve duas etapas em cada aplicação desta. Na etapa inicial de adoção da tecnologia, as características básicas desta podem ser melhoradas ou adaptadas a condições específicas. Na segunda etapa, com a tecnologia em difusão, outras melhorias podem ocorrer em cada unidade produtiva que a usa. Deste modo, a tecnologia inicial pode conhecer vários tipos de modificações em função dos objetivos e das condições de seu uso.

Estas considerações deixam aparecer claramente que no presente trabalho os países em desenvolvimento não podem ser definidos como receptores passivos de técnicas geradas nos países desenvolvidos. Eles podem fazer - e, de fato, têm feito - modificações tecnológicas úteis, adaptadas às suas próprias condições locais (Evenson & Westphal, 1995). O fato de que um país se apoia firmemente na tecnologia estrangeira não significa necessariamente que ele não desenvolve a capacidade tecnológica autóctone (Dahlman, 1984).

Durante os últimos trinta anos, o reconhecimento da tecnologia como o motor do crescimento econômico tem provocado um interesse crescente na compreensão do processo de mudança tecnológica. Apesar deste interesse, alguns aspectos da dinâmica complexa deste processo permanecem ainda problemáticos por falta de elementos conceituais e metodológicos. Entre estes aspectos encontram-se a definição e medição da "intensidade do conhecimento" (Freeman, 1994: 488), a elaboração de "uma taxonomia das medidas de incentivo e de suporte necessárias ao desenvolvimento tecnológico" (UNCTAD, 1996: 136).

Contudo, não se pode negar o progresso realizado para interpretar a mudança tecnológica. Este trabalho, dividido em cinco partes, tem por objetivo examinar as características da mudança tecnológica com base na literatura desenvolvida nos últimos trinta anos. Na próxima parte, procura-se identificar a natureza da tecnologia. Depois, caracteriza-se a dinâmica da mudança tecnológica. Em seguida, interpreta-se a direção da mudança tecnológica. Afinal, destaca-se as especificidades da mudança tecnológica que decorrem do caráter multidimensional da tecnologia.

2. A natureza da tecnologia

O conceito "tecnologia" deriva de duas palavras gregas: techne, habilidade ou técnica e logos, conhecimento ou ciência. Portanto, a tecnologia pode ser definida como o conhecimento de habilidades ou técnicas, ou, como a ciência de habilidades ou técnicas.

Mas, apesar de sua etimologia, a tecnologia não escapou de uma grande diversidade de interpretações que lhe foram conferidas na literatura sobre a mudança tecnológica. Isso se explica pela compreensão cada vez mais profunda da estrutura e das características da tecnologia.

Algumas metáforas são freqüentemente usadas para definir a tecnologia. Às vezes, esta é comparada a um "conjunto de esquemas, textos, quadros e equações". Tal interpretação supõe que a tecnologia pode ser dominada a partir da documentação relevante e específica. Em outras ocasiões, a tecnologia é vista como know-how3 e, portanto, é definida como um conjunto de habilidades expressas através dos dedos.

É verdade que existem muitas tecnologias descritas em livros e que o acesso a estes fornece um ponto de partida para acioná-las. Também, é claro que são numerosas as tecnologias cujo domínio envolve consideravelmente o aprendizado através de exercícios manuais. Entretanto, observações examinadas em estudos empíricos sobre a mudança tecnológica não permitem escolher exclusivamente uma ou outra destas duas interpretações, pois "quase sempre o domínio de uma tecnologia exige experiências" (Nelson, 1994: 312).

Esta reflexão não é incompatível com a contribuição de Dosi (1988)4. Conforme esta, a geração de tecnologias envolve o uso de informações obtidas não apenas da experiência prévia e do conhecimento explícito formal mas também do conhecimento tácito. A experiência é adquirida no passado; o conhecimento explícito ou formal é de natureza crescentemente científica; e o conhecimento tácito é constituído pelas capacidades específicas e não codificadas. Estas últimas se distinguem por seu caráter implícito no sentido que formam um tipo de conhecimento não-publicado, que não pode ser plenamente expresso até por seus detentores e "que é diferente de uma pessoa a outra mas que pode ser significativamente compartilhado por colaboradores e colegas que têm uma experiência comum" (Dosi, 1988: 1126).

Uma observação importante é que - se a experiência se revela um elemento quase sempre necessário - as capacidades tácitas e o conhecimento formal, exigidos para o domínio de uma tecnologia, têm uma relevância variável de um setor para outro. Por exemplo, a engenharia mecânica depende em boa parte de conhecimento tácito sobre a performance das máquinas anteriormente produzidas, suas condições típicas de uso, etc. Mas, em metalurgia, ciência de computação, ciência de novos materiais, química e, particularmente, no caso da biotecnologia as exigências em conhecimento formal são consideráveis.

A partir de tal análise estrutural da tecnologia, é possível identificar três particularidades essenciais desta. A primeira é que a tecnologia não é uma simples informação. Esta é só um componente da tecnologia. De fato, é mais rápido ter informações sobre atividades de outras unidades produtivas que reproduzir ou copiar seus resultados inovativos (Dosi, 1988). É verdade que uma boa parte do conhecimento formal é difundida sob forma de informação disponível em jornais, livros, boletins, etc. Mas, isso não quer dizer que a leitura de tal informação é suficiente para o acesso a habilidades tecnológicas que são adquiridas só através do envolvimento em processos de inovação e/ou de difusão. O conhecimento tácito "inclui crenças e modelos mentais além do know-how" (Nonaka, 1991: 98) e, portanto, confere a cada unidade produtiva ou pessoa um jeito específico de gerar e aplicar a tecnologia.

A segunda particularidade é que o conhecimento científico-tecnológico envolve a mobilização de indivíduos e instituições. Com tal perspectiva, torna-se mais evidente a importância do que se chama "difusão de tecnologia não incorporada em equipamento"5. Nonaka (1991: 97) assinala que "o novo conhecimento começa sempre com o indivíduo". Para ele, é possível até transformar o tácito em conhecimento explícito ou formal segundo um processo que ele chama de "espiral de conhecimento". Este processo consiste de quatro etapas em interação dinâmica:

    1. a socialização, que é a etapa em que um indivíduo compartilha o conhecimento tácito com um outro. Esta compartilha de conhecimento se faz através da observação, da imitação e da prática;
    2. a articulação, que é a etapa em que o segundo indivíduo traduz estes segredos em conhecimento explícito. Esta tradução exige um bom nível de conhecimento formal por parte deste segundo indivíduo. Nesta etapa, ele chega também a comunicar o conhecimento traduzido aos membros de sua equipe;
    3. a combinação, que é a etapa em que "a equipe uniformiza este conhecimento, o colocando num manual e o incorporando num produto";
    4. a internalização, que é a etapa em que a experiência adquirida pela equipe na criação do novo produto lhe confere uma nova geração de conhecimento tácito.

Esta última etapa pode ser o ponto de partida de uma outra espiral num nível mais elevado (Nonaka & Umemoto, 1996). Tal concepção de difusão tecnológica merece uma atenção especial, principalmente por parte dos "engenheiros de conhecimento", embora a terceira etapa seja ainda um pouco confusa. Considerada numa perspectiva internacional, ela permite perceber que os países em desenvolvimento precisam ter políticas bem definidas de criação de conhecimento.

A terceira particularidade é que a geração de tecnologia supõe "apropriabilidade de benefícios" ou "lucratividade". De fato, "cada tecnologia incorpora um balanço específico entre aspectos de bem-público e características privadas" (Dosi, 1988: 1139). Para entender esta particularidade manifestada pela tecnologia, é bom examinar os atributos dos bens econômicos.

Alguns trabalhos, realizados em economia de finanças públicas6, permitem identificar dois atributos de qualquer bem econômico: o grau em que ele é "rival" e o grau em que ele é "excludente". A rivalidade é uma propriedade da natureza do bem em questão enquanto a exclusividade se define essencialmente em função do sistema legal.

Primeiro, um bem econômico pode ser rival ou não-rival. Ele é rival se não pode ser usado simultaneamente por duas pessoas ou unidades produtivas; no caso contrário, ele é não-rival.

Segundo, um bem econômico pode ser excludente ou não-excludente. Ele é excludente se seu proprietário pode impedir seu uso por uma outra pessoa ou unidade produtiva; no caso contrário, ele é não-excludente.

Com base nestas considerações, é possível distinguir dois tipos extremos de bens econômicos: convencional e público. Por definição, um bem econômico convencional é simultaneamente rival e excludente; ele é privadamente fornecido no mercado. Mas, um bem público é simultaneamente não-rival e não-excludente; ele não pode ser privadamente fornecido. Quais são os atributos do conhecimento tecnológico?

O conhecimento tecnológico envolve a educação formal, a experiência e as capacidades específicas. Ele é não-rival no sentido que duas ou mais pessoas ou unidades produtivas podem usá-lo ao mesmo tempo. Também, depois dos gastos ocorridos para sua geração, o conhecimento tecnológico pode ser usado e re-usado quase sem custo adicional. Mas, ele é parcialmente excludente já que arranjos institucionais podem, pelo menos temporariamente, conferir o direito de seu uso só a seu proprietário. O fato que o conhecimento tecnológico é, de um certo modo, excludente suscita interesses que motivam ações de indivíduos e instituições no sentido de gerar novos produtos e processos.

A motivação de tais atores supõe a existência de possibilidades de apropriação dos benefícios das inovações, pois tais possibilidades constituem ao mesmo tempo o incentivo e o objetivo do processo inovativo. É com referência a tal evidência que Dosi (1988: 1139) inventa o conceito apropriabilidade para traduzir as "propriedades do conhecimento tecnológico, de artefatos técnicos, de mercados e do ambiente legal que permitem inovações e as protegem, em graus diversos, como recursos rentáveis contra a imitação de competidores". As condições de apropriabilidade são diferentes de uma indústria para outra e também de uma tecnologia para outra7.

3. A dinâmica da mudança tecnológica

A identificação dos determinantes da mudança tecnológica requer um exame do velho debate, historicamente mantido sobre a importância relativa da ciência e do mercado. De um lado, a ciência era vista como um fator relativamente autônomo. De outro lado, as forças do mercado eram apresentadas como o principal motor da mudança tecnológica. Assim, foram constituídas duas abordagens bem distintas no que diz respeito a seu objeto e a sua metodologia8.

A primeira abordagem, geralmente chamada de science-push, dá uma importância considerável aos processos de adoção-difusão. O problema do desenvolvimento econômico é substancialmente considerado como o problema da difusão do progresso técnico pois uma aspiração à modernização supõe a aplicação de conhecimentos científicos modernos à produção.

Ainda mais, a mudança tecnológica é vista como determinada por fatores externos ao sistema econômico. Em outras palavras, ela é interpretada como "dada por Deus, cientistas e engenheiros"9. Guiados por esta premissa e imbuídos das dificuldades de introdução de novos produtos e processos, os promotores da abordagem science-push se preocupam sobretudo em saber como acelerar a taxa de adoção e difusão de novos resultados da ciência. Seus estudos se inscrevem na tradição intelectual subjetivista e behaviorista, que define e explica os problemas e comportamentos sociais em termos de atos individuais.

A pergunta fundamental que os promotores desta abordagem formulam é a seguinte: "Já que a tecnologia provoca o aumento de lucros, por que o produtor comercial opõe uma resistência à sua introdução nos mecanismos de produção?" Para eles, a resposta se encontra no âmbito do processo de adoção e difusão. O produtor comercial é visto como um ator que avalia uma inovação, não com base em estudos objetivos de suas conseqüências, mas sim a partir das reações subjetivas de seus primeiros-adotantes. Esta dependência em relação à experiência de colegas sugere automaticamente métodos de ação para levar o produtor comercial a introduzir tecnologias no processo de produção. Para Rogers (1983: 10), os elementos fundamentais da mudança tecnológica são: "a inovação, a comunicação, o tempo e o sistema social".

É bom ressaltar que esta abordagem coloca em evidência a comunicação como o fator que engendraria todo um processo de decisão através da persuasão, adoção e confirmação de resultados. São as perspectivas de lucros que encorajariam a introdução de uma nova tecnologia. Neste sentido, a mudança tecnológica é entendida como um processo de imitação, refletindo os comportamentos de quatro categorias de indivíduos: os adotantes-pioneiros, os imitadores-precoces, os imitadores-atrasados e os retardatários.

Em resumo, esta abordagem vê a ciência como "uma espécie de deus-ex-machina exógeno e neutro" (Dosi, 1982: 151) que aciona o processo de mudança tecnológica. Inspirada da teoria comportamentalista ela coloca em evidência o aspecto psicológico da propensão a inovar. Seus principais argumentos são formulados a partir de três tipos de elementos: primeiro, as características individuais e sociais do produtor; segundo, o contexto social em que este opera; terceiro, as conseqüências das inovações geradas.

Oposta a esta primeira abordagem, se encontra a outra, comumente denominada demand-pull. Ela se baseia na hipótese central de que seja o mercado qui determinaria a mudança tecnológica. Esta seria provocada por transformações na demanda e oferta de produtos e fatores através de sinais expressos pelos preços do mercado.

Para a abordagem demand-pull, a mudança tecnológica não é exógena ao processo de produção. A invenção e a inovação são essencialmente atividades econômicas, respondendo a movimentos ocorridos na demanda do mercado. Em outras palavras, é o funcionamento do sistema econômico que cria e fortalece a interação efetiva entre instituições de pesquisa e empresas comerciais. Neste contexto de interação operacional, a mudança tecnológica é influenciada pela dotação de recursos e pela demanda de produtos. Assim, é reconhecida a possibilidade de caminhos múltiplos de mudança tecnológica. "Tecnologias podem ser desenvolvidas de modo a facilitar a substituição de fatores relativamente escassos (portanto, dispendiosos) por fatores relativamente abundantes (e portanto, baratos)" (Hayami & Ruttan, 1988: 89).

Em suma, a abordagem demand-pull supõe que as unidades produtivas reconhecem, primeiro, suas necessidades para, em seguida, tentar satisfazer estas através de esforços tecnológicos. Assim, a mudança tecnológica é concebida como determinada pelas condições do sistema econômico.

As críticas em relação a estas duas abordagens são múltiplas. A abordagem science-push é criticada devido à sua dificuldade em levar em conta o fato óbvio que fatores econômicos desempenham um papel importante na determinação da direção da mudança tecnológica. Quanto à abordagem demand-pull, ela falha por causa de sua dificuldade em explicar por que e quando desenvolvimentos tecnológicos específicos ocorrem e por que a capacidade de invenção muda ao longo do tempo sem qualquer relação direta com a mudança das condições de mercado10.

Conforme estas críticas, revela-se evidente a necessidade de levar em consideração, não unicamente o ambiente econômico ou o processo de inovação, mais sim ambos os mecanismos ao mesmo tempo. A mudança tecnológica precisa ser reconhecida como um processo caracterizado por interações contínuas e numerosas. Ela depende tanto do conhecimento científico-tecnológico quanto das forças do mercado.

O conhecimento científico-tecnológico é reconhecido como uma variável cumulativa. Tal característica deixa aparecer duas dimensões fundamentais do processo de mudança tecnológica (Dosi, 1988; OECD, 1991). A primeira é o fato que o conhecimento científico tecnológico é localizado e que sua imitação ocorre lentamente. Muitas vezes, é preciso muito tempo para entender uma inovação patenteada, desenvolver protótipos, modificar o equipamento existente e engajar-se nas atividades de produção requeridas para introduzir um produto ou processo imitável. A segunda dimensão é que o pleno desenvolvimento e uso de uma nova tecnologia envolve processos de aprendizado muito importantes. Qualquer unidade produtiva (inovadora ou imitativa), que quer usar uma tecnologia, precisa por exemplo aprender a manipular o equipamento adequado, a administrar eficientemente sistemas complexos e a entrosar-se com os usuários do produto. Uma observação bastante relevante, no que diz respeito a este aspecto, é que atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) têm um papel importante nos processos de produção. Além de gerar novas inovações, estas atividades aumentam a habilidade de qualquer unidade produtiva para assimilar e explorar informações disponíveis no domínio público.

Deste modo, uma mudança nas forças do mercado não pode provocar automaticamente uma ruptura tecnológica. Mas, isso não quer dizer que o mercado é sem efeito sobre o processo de mudança tecnológica. "Já que a invenção ou inovação reflete o aprendizado e que este emana parcialmente de atividades de rotina, a inovação é, por definição, enraizada na estrutura econômica prevalecente" (OECD, 1991: 44). Os mecanismos de incentivo determinados pelo mercado são relevantes à propensão a procurar novos produtos e novas técnicas. Conforme Dosi (1988: 1140), "os níveis e mudanças na demanda (dimensão e crescimento do mercado, elasticidade-renda de diversos produtos), assim como os níveis e mudanças nos preços relativos, em particular o preço do trabalho em relação ao preço das máquinas e também ao preço da energia são fatores importantes".

Na verdade, há uma interação evidente entre ciência, tecnologia, produção e "marketing". Os insumos científicos têm um papel considerável no processo de mudança tecnológica. Eles oferecem grandes oportunidades para as unidades produtivas restruturarem-se, adaptarem-se e sobreviverem na presença de uma forte ruptura tecnológica. Contudo, eles não são suficientes para explicar as modificações progressivas ocorridas no processo de mudança tecnológica. Neste sentido, tanto o conhecimento científico-tecnológico quanto os mecanismos de produção e as forças do mercado são geralmente necessários para a interpretação deste processo.

4. A direção da mudança tecnológica

Por definição, a mudança tecnológica - envolvendo não apenas a difusão mas também a inovação - se refere à solução de problemas relativos à produção de bens e serviços. Tal mudança não surge milagrosamente como "maná de países tecnologicamente avançados". Como já vimos, ela resulta da combinação ocorrida entre a experiência, o conhecimento formal e o conhecimento tácito. Sua manifestação pressupõe o desenvolvimento e aperfeiçoamento de modelos e procedimentos específicos. O conjunto destes requisitos para a mudança tecnológica pode, conforme Dosi (1982, 1988), ser denominado "paradigma tecnológico", entendido como conjunto de soluções a problemas tecnológicos específicos, baseadas em princípios científicos e tecnologias selecionados11.

O termo "paradigma" vem da palavra grega paradigma que significa "mostrando um exemplo". Na história da igreja, este termo era usada para designar memórias de pessoas religiosas escritas como exemplos de excelência na solução de problemas específicos (Andersen, 1991). Conforme este significado, Kuhn (1983: 238) o usa também para designar, notadamente, "as soluções concretas de enigmas que, empregados como modelos ou exemplos, podem substituir as regras explícitas na qualidade de bases de soluções aos enigmas que subsistem na ciência normal". É por analogia a esta definição kuhniana de um "paradigma científico" que Dosi (1982) explica a natureza do "paradigma tecnológico". Para ele, há evidentes semelhanças entre ambos nos "mecanismos e procedimentos". O paradigma tecnológico "determina o campo de investigação, os problemas, os procedimentos e as tarefas, do mesmo jeito que o faz o paradigma científico. Se a 'ciência normal' é a 'atualização de uma promessa' contida num paradigma científico, o é também o progresso tecnológico definido por um certo paradigma tecnológico" (Dosi, 1982 :152).

Um "paradigma tecnológico" é caracterizado pela natureza do conhecimento tecnológico em função do qual atividades inovativas são concebidas assim como pelos procedimentos organizacionais para a busca e a exploração das inovações (Dosi & Nelson, 1994). Neste sentido, ele é visto como meio de coordenação entre os engenheiros de uma comunidade homogênea, ou seja, entre os que são envolvidos na geração e administração de uma tecnologia particular. Mas, o acoplamento de qualquer tecnologia com a realidade econômica nacional ou global exige uma ampliação desta visão de paradigma tecnológico. Tal exigência leva a duas outras visões, ambas conhecidas sob a apelação de "paradigma tecno-econômico" mas diferentes no seu objeto respectivo.

De um lado, Freeman & Perez (1988) assinalam que o progresso tecnológico global é descontínuo e que num certo momento - aproximadamente de cada em cada cinqüenta anos - ocorrem mudanças amplamente significativas em termos de direção no percurso tecnológico assim como profundas transformações institucionais e sociais. Segundo eles, tais mudanças e transformações vão além da introdução de produtos radicalmente novos pois afetam profundamente estruturas de custo dos insumos e, portanto, o contexto de produção e distribuição de bens e serviços.

De outro lado, Andersen (1991) vê o "paradigma" como uma definição mutuamente aceita da interface produtor-usuário que toma parcialmente a forma de especificações das mercadorias a serem entregues. Para ele, tais especificações fornecem guias que, até certo ponto, determinam melhoras tecnológicas realizadas por produtores e usuários. Ele assinala que a ocorrência de mudanças radicais pressupõe o cancelamento das especificações básicas e, muitas vezes, o estabelecimento de grupos totalmente novos de produtores e usuários.

A distinção entre estas duas últimas interpretações do paradigma é nítida. De um lado, o "paradigma tecno-econômico" de Perez e Freeman é macrotecnológico. De outro lado, o "paradigma tecno-econômico" de Andersen é microtecnológico. O fundamental é sublinhar que qualquer paradigma fornece guias cognitivos para indivíduos e instituições que procuram promover a tecnologia. Tais guias constituem quadros dentro dos quais problemas são definidos e soluções identificadas. Deste modo, a mudança tecnológica não é fortuita mas é guiada de maneira a reduzir a margem de erro.

Estas considerações levam ao que Dosi (1982, 1988) chama de "trajetória tecnológica", definida como um caminho de evolução tecnológica permitido por um paradigma. Ela é modelada pelas percepções de oportunidades, pelo mercado e por outros mecanismos de avaliação que determinam as melhorias passíveis de ser rentáveis. A trajetória abrange as mudanças marginais e contínuas, ocorridas na expansão de uma tecnologia particular a partir de um ponto de descontinuidade.

Em resumo, a existência de "paradigma" e de "trajetória" supõe que a tecnologia evolui. Em geral, a evolução de uma dada tecnologia é contínua e progressiva dentro de uma unidade produtiva. Entretanto, num certo momento, esta tecnologia pode ser objeto de mudanças radicais provocando uma ruptura no processo de sua evolução. A partir deste ponto de descontinuidade, emerge um novo conjunto de oportunidades ou alternativas das quais algumas podem tornar-se caminhos para novos processos tecnológicos.

As mudanças radicais ou progressivas, fundamentais ou marginais não acontecem automaticamente em qualquer processo tecnológico. São resultados de ações de atores dentro de um contexto institucional determinado. Isso leva a lembrar o que é chamado de "regime tecnológico", entendido por Dosi & Nelson (1994: 161) como "o complexo de unidades produtivas, de sociedades e disciplinas profissionais, de programas universitários de treinamento e pesquisa, e de arranjos legais e institucionais que promovem e restringem a mudança tecnológica ao longo das trajetórias".

5. Conclusão

A mudança tecnológica é o resultado de um processo não linear mas sim "interativo", envolvendo diferentes atividades executadas por vários atores num contexto em perpétua evolução. Este processo é caracterizado pela "acumulação" de capacidades não só de usar recursos para a produção de bens comerciais mas também de introduzir, absorver, renovar e criar técnicas. Tal interpretação da mudança tecnológica é compatível com a natureza da tecnologia, descrita como um bem cujo uso particular requer não apenas "informações codificadas", adquiridas a partir da educação (ou atividade científica) formal e da experiência anterior mas também "conhecimentos não-codificados", incorporadas em pessoas e instituições. O caráter multidimensional da tecnologia sugere três observações.

A primeira é que a tecnologia é específica em relação à indústria e até à unidade produtiva. É verdade que fontes externas a uma indústria (ou unidade produtiva) determinada participam da acumulação tecnológica realizada por esta. As descobertas e avanços científicos exogenamente gerados se revelam geralmente bem importantes à inovação técnica a nível de indústria ou unidades produtivas. A ciência fornece também ao setor produtivo jovens profissionais com nível razoável de conhecimento e habilidade. Além disso, a natureza e intensidade da interação com outros atores constituem para as unidades produtivas um determinante fundamental de sucesso inovativo.

Mas, qualquer que seja a contribuição das fontes externas a sua acumulação tecnológica, a indústria (e sobretudo a unidade produtiva) precisa desenvolver um processo de aprendizado para criar suas capacidades tecnológicas. As condições decisivas para um processo de acumulação tecnológica dependem em boa parte da combinação entre as funções de concepção, desenvolvimento, produção e marketing. Com tal combinação, a indústria (ou unidade produtiva) reconhece oportunidades específicas com maior facilidade e eficiência, tira proveito de mecanismos de apropriabilidade e melhora crescentemente suas capacidades orientadas para explorar tecnologias particulares e desenvolver métodos específicos de solução de problemas. Assim, as indústrias ou unidades produtivas desenvolvem trajetórias tecnológicas bem específicas. É por isso que o setor alimentar tem sua próprias trajetórias tecnológicas.

A segunda observação é que as tecnologias de uma indústria (ou setor) determinada se diferenciam das outras em função da estrutura de seu conteúdo. Em outras palavras, estas tecnologias, para serem usadas, podem requerer por parte do usuário mais ou menos conhecimento não-codificado que as outras. De fato, as tecnologias principalmente associadas a indústrias baseadas em ciência exigem mais conhecimento científico e técnico codificado que as de outros setores industriais. Para tais tecnologias, a pesquisa básica é considerada muito importante à capacidade setorial de inovação. Neste sentido, as biotecnologias alimentares, por exemplo, têm também suas próprias características, apresentadas no terceiro capítulo. Antes desta apresentação, o importante a lembrar é que até as tecnologias principalmente associadas a indústrias baseadas em ciência possuem elementos de conhecimento que são tácitos e específicos.

A terceira observação é que a tecnologia não pode ser integralmente transferida. Esta observação se explica a nível tanto intrasetorial, intersetorial como internacional. Uma parte mais ou menos significativa dos elementos de conhecimento relativo à tecnologia original não chega ao lugar de destino. Neste sentido, o uso de uma tecnologia externamente gerada implica em modificações adaptativas desta a partir de sua introdução no ambiente receptor. Tal implicação se justifica também para a transferência internacional de biotecnologias alimentares, analisada no quarto capítulo.

O fundamental a destacar aqui é que a mudança tecnológica não é fortuita e não ocorre sem custo. Tal mudança pressupõe e supõe a acumulação tecnológica que, aliás, não pode ser vista como um sub-produto mais ou menos automático da política industrial ou comercial. A acumulação tecnológica está se revelando um processo cada vez mais especializado e complexo. Em qualquer país, ela requer políticas ou estratégias específicas destinadas a promover a criação de capacidades tecnológicas.

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NOTES

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2 Em relação a este aspecto, ver o conceito "sensibilidade circunstancial", desenvolvido em Evenson & Westphal (1995).

3 O know-how é entendido como a habilidade prática acumulada que permite executar uma tarefa de maneira fácil e eficiente.

4 Várias outras contribuições ajudaram a chegar a esta interpretação da tecnologia. Para mais informações, ver Dosi (1988).

5 Distinguem-se dois tipos de difusão de tecnologia: "difusão de tecnologia não incorporada" e "difusão de tecnologia incorporada em equipamento" (OECD, 1991: 58).

6 Para mais informações sobre estes trabalhos, ver Hayami & Ruttan (1988) e Romer (1990).

7 Consultar Dosi (1988). Ver também Pavitt (1984) que desenvolveu uma taxonomia setorial baseada na produção e no uso de inovação.

8 Para uma apresentação crítica destas duas abordagens, ver Dosi (1982, 1988), Dosi et al. (1990), Fonte (1990) e OECD (1991).

9 Esta expressão já faz parte da literatura sobre a mudança tecnológica (Dosi, 1982: 151).

10 Para uma exposição mais detalhada das principais críticas, ver Dosi (1982, 1988) e Fonte (1990).

11 Na sua definição, o conceito "paradigma tecnológico" lembra o focusing devices e o technological guide-post introduzidos na literatura sobre a mudança tecnológica. Para mais informações, ver Dosi (1988).



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